sexta-feira, maio 20, 2005

 

O banco dos favores

"Curiosamente, sempre que governos e administração central ou local são pressionados pela esquerda, as pressões são descritas como "contestações", "reinvindicações". Até "exigências". Quando uma cooperativa falida exige do Estado mais dinheiro para alimentar o seu buraco financeiro, o que temos? Tudo menos tráfico de influências. Quando um sindicato propõe uma alteração legislativa ou uma central prepara uma minuta de decreto-lei, o que temos? Tudo menos tráfico de influências.

E quando "o capital" (a que anda associada aquela coisa pecaminosa a que se tem chamado lucro) pressiona o poder? Temos cunhas, claro. E provavelmente tráfico de influências. Ou mesmo corrupção.

Acontece que Portugal é um país pequenino, com elites também pequeninas e com um grande rol de burocracias inventadas à medida dos favores que alimentam o país. Não há corrupção em Portugal? Claro que há. Muita. Não há é vontade e capacidade de a combater a sério.

Pela minha parte, confesso que já meti cunhas. Posso mesmo ter cometido algum tráfico de influências. Já pisquei o olho à senhora da junta de freguesia para dar uma certidão mais depressa, já fiz cenas de aliciamento em notários para antecipar a data de uma escritura, já liguei mesmo a um ou dois directores para saber quando abririam vagas para jovens que, para além de competentes e capazes, estavam desempregados.

Cheguei a inquirir se não era tudo decidido por cunhas. Era, em ambos os casos. O país, queiramos ou não admiti-lo, funciona assim. E depois? Depois, talvez fosse melhor e mais produtivo rever a legislação que temos de forma a que ela seja cumprível.

A construção civil, por exemplo, é o sector mais diabolizado, encontrando-se submetida a um quadro legal praticamente incumprível. Para piorar a coisa, os construtores aliam a grande capacidade económica e financeira a uma notável capacidade de "trânsito" junto dos políticos, sejam eles de direita ou de esquerda. Disse-me há anos um empreiteiro que os maiores prejudicados com a corrupção são eles próprios, construtores e promotores imobiliários. A sua vida seria infinitamente mais fácil se não houvesse corrupção. Ora, os construtores civis não são um grupo à parte, uma espécie a abater pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Eles são apenas uma pequeníssima fatia dos clientes do maior banco português.

De um banco que não irá nunca à falência. Que não tem contabilidade organizada. Do qual não se conhece o EBITDA. Chama-se banco dos favores. Somos todos clientes. " por Inês Serra Lopes

Comments:
Cada um fala do si. Pois eu odeio cunhas, compadrio e tráfico de influências, porque sei o quanto isso tudo é de criminoso para a sociedade; o quanto é prejudicial para o progresso do País. Não meto cunhas, nunca meti e muito me tenho prejudicado com isso. Em contrapartida fui alvo de perseguições criminosas de toda essa gente, que destruiram a minha vida e têm destruido a sociedade, de forma sistemática e premeditada. Também acho que as leis têm de ser cumpríveis e que temos leis a mais e rigor (dignidade dos governantes) a menos. Também seguiria um caminho bem diferente do que se perspectiva, nomeadamente quanto à fuga ao fisco, que é outro entrave ao desenvolvimento e entrave à resolução de muitos problemas. Mas daí a "abençoar" as cunhas... tenham dó (e um mínimo de pudor), porque há muita gente, muito válida, que oideia cunhas, tal como eu e que são lançados para o lixo, mas quem mais "se lixa" é a sociedade e o país. O rigor e responsabilização têm de ser tais que não permitam a actual inversão de critérios (onde prolifera a cunha) e imponham a colocação "das pessoas certas nos lugares certos", porque isso permite resolver mais de 70% dos nossos problemas, de todos os sectores em crise, incluindo todos os mais graves e prementes.
Quase que escrevia tanto como o post...
 
Best regards from NY! video editing schools
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?